Há uns anos li um livro de contos filosóficos do mundo inteiro chamado Tertúlia de Mentirosos de Jean-Claude Carrière. Alguns contos são bastante profundos, outros divertidos, outros são mesmo parvos. Há um de que gosto bastante e a primeira vez que o li achei-o muito engraçado. Com o passar do tempo comecei a achá-lo mais profundo do que parece. Fica aqui a transcrição do conto.

Uma história americana do século XX apresenta um camponês paupérrimo que todos os dias vai trabalhar para o campo, com a sua vaca. É um homem honesto, que labuta para alimentar a mulher e a família.

Um dia o céu abre-se, desencadeia-se uma tempestade e um raio mata a sua única vaca.

-Mas porquê eu? – brada o camponês dirigindo-se a Deus. – Que te fiz eu? Porque me atingiste? Não serei já suficientemente infeliz?

Deus nada lhe responde.

Passam meses, anos. O camponês, cada vez mais pobre, vai trabalhar sozinho, com as suas mãos fatigadas. A sua mulher, de vez em quando, vai ajudá-lo. Leva-lhe um magro alimento. Outra tempestade revolve o céu, o raio fura as nuvens e mata-lhe a mulher.

O camponês torce as mãos de desespero e grita, de olhos no céu:

-Mas porquê? Que mais te fiz eu? Sou muito pobre e pio! Porque me mataste a mulher? Responde! Que te fiz eu?

Então as nuvens escuras entreabrem-se, surge uma imensa luz e a voz de Deus diz:

-Tu não me fizeste nada. Mas de vez em quando, enervas-me.