Era uma vez um coelho que adorava espinafres. Todos lhe davam cenouras porque toda a gente sabe que os coelhos adoram cenouras. Mas este era diferente: gostava mesmo era de espinafres e só os tinha comido uma vez na vida. Olhava para as cenouras com um ar desapontado e enfado, eram cor-de-laranja, duras…e o que ele queria mesmo era espinafres que ninguém lhe dava!

Um dia conheceu uma tartaruga. A tartaruga já tinha muitos e muitos anos. Tinha viajado, devagarinho, muito devagarinho mas já conhecia muito do mundo, das pessoas e dos animais.

O coelho contou-lhe da sua tristeza. A tartaruga refletiu por uns instantes e perguntou-lhe “Já disseste a quem te dá cenouras que não gostas? Já lhes disseste que gostas mais de espinafres? Não deve ser assim tão difícil trocarem…”.

O coelho fitou-a com um ar surpreso e impaciente “Não, não vale a pena, não me ouvem”.

“Já lhes perguntaste?”, disse a tartaruga. O coelho acenou que não.

A tartaruga divertida perguntou-lhe “Então, como sabes que não te ouvem se nunca experimentaste perguntar?”

O coelho cada vez mais impaciente respondeu “Não ouvem, não querem saber e isso é muito complicado… íam lá agora arranjar espinafres em vez de cenouras, sempre me deram cenouras”.

A tartaruga voltou a refletir e disse-lhe “De onde eu vim agora, no terreno do vizinho, há uma horta de espinafres, fica para lá da estrada e para lá do riacho. Não há lá muita gente, será fácil de chegares e refastelares-te com espinafres.”

O coelho olhou-a desconfiado “Sim MAS é muito complicado sair daqui, é perigoso atravessar a estrada e atravessar o rio…isso implicava…molhar-me!”

A tartaruga surpreendida perguntou “Perigoso atravessar a estrada? Como assim?”

O coelho enfadado respondeu “Há carros, não sabes?”.

“Sim, mas não estão sempre a passar, até são mesmo muito poucos. Repara, até eu consegui atravessar a estrada!” respondeu a tartaruga.

“Pois, mas passam e são perigosos” respondeu o coelho.

A tartaruga olhou-o, sorriu e lentamente voltou-lhe as costas e foi-se embora refletindo sobre todo o empenho, energia e criatividade que o coelho investiu em identificar obstáculos e dificuldades que o impediriam de saborear os tão desejados espinafres.

O que aconteceria se tivesse usado todo esse empenho, energia e criatividade para encontrar soluções para o seu problema? E enquanto pensava nisto, saboreava uma folha de espinafres da horta do vizinho.