Há muitos e muitos anos, num reino muito distante, um demónio entrou num palácio enquanto o rei estava fora. O demónio era muito feio, cheirava mal e dizia coisas horríveis. Como os guardas estavam aterrorizados, o demónio conseguiu chegar à sala do trono e sentar-se no trono! Vendo o demónio ali, os guardas decidiram fazer algo e começaram a gritar com ele “Sai daí! Tu não pertences aí, se não saíres já… vamos atacar-te com as nossas espadas!”.

À medida que estas ameaças eram feitas, o demónio crescia, a sua cara ficava mais feia, começava a cheirar pior e a sua linguagem passava a ser ainda mais obscena.

As espadas foram agitadas no ar, os punhais mostrados e mais ameaças foram feitas. A cada palavra zangada, a cada gesto irritado, a cada pensamento com raiva, o demónio crescia mais e mais, tornava-se cada vez mais medonho.

O confronto manteve-se até o rei chegar. Quando o rei voltou, viu o demónio gigantesco no seu trono. Nunca tinha visto nada tão repulsivo.

Mas o rei era sábio. Ele sabia o que fazer.

Então, o rei disse ao demónio calorosamente “Bem-vindo ao meu palácio! Já alguém lhe deu algo para comer ou beber?”. A este pequeno gesto de gentileza o demónio diminuiu um pouco, o cheiro ficou menos nauseabundo e as palavras menos ofensivas. O pessoal do palácio percebeu rapidamente o que fazer. Um perguntou ao demónio se queria uma chávena de chá e ofereceu-lhe vários tipos, indicando que o chá verde era bom para a saúde. Outro telefonou e mandou vir uma piza gigante. Outros fizeram sanduiches, outros fizeram-lhe massagens.

A cada palavra gentil, a cada gesto, o demónio ficava mais pequeno, menos mal cheiroso, menos ameaçador e ofensivo. Quando o rapaz da piza chegou, o demónio estava do tamanho de quando tinha entrado. Mas nunca pararam de ser gentis até que o demónio mal se via e desapareceu por completo.

A estes monstros chamam-se demónios que se alimentam raiva. Às vezes as pessoas com quem lidamos são demónios que se alimentam de raiva e agressividade. Ficar zangados com essas pessoas só faz o monstro ficar mais feio. O problema cresce, cresce.

Dentro de nós também temos demónios destes, que se alimentam da nossa dor ou de outros estados. Normalmente dizemos-lhe “dor, vai-te embora, não te quero aqui”…e a dor cresce, ficando cada vez pior. Às vezes é difícil sermos gentis para algo tão feio e ofensivo como a dor, mas há alturas na nossa vida em que não há outra opção. E mesmo havendo outra opção, resistir ao que é, causa-nos ainda mais dor e sofrimento.

Adaptado e traduzido do livro “Who ordered this truckload of dung?”, Ajahn Brahm